ALDEIA DE GRALHAS!... APROVEITE, E CONHEÇA A HISTÓRIA, USOS, COSTUMES E TRADIÇÕES DESTA ALDEIA DE BARROSO...

– AS CASAS

Até há cerca de 40/50 anos atrás, regra geral, as casas dos lavradores estavam perfeitamente adaptadas às actividades agrícolas e pastoris.
Sobre o mesmo tecto, abrigavam-se muitas vezes, animais e os produtos que a terra dava. O rés-do-chão era reservado para a loija (adega), cortes dos porcos, tudo paredes meias com a corte da rês (ovelhas) e côrtes do gado. Os estábulos davam normalmente para um pátio, e se o recinto fosse adequado, podia até servir de eira, com o palheiro a fechar o círculo.
Noutros casos porém, a eira, o palheiro e as cortes de gado eram um conjunto independente e até distante da casa de habitação. A escada exterior em pedra levava à cozinha e a varanda corria toda a fachada, dando acesso ao sobrado de limpo e compartimentos para dormir.A par das casas dos lavradores existiam ainda e em determinadas situações, as casas dos cabaneiros (pessoas de poucas posses), estas muito mais modestas e apertadas, mas não raramente com mais família para abrigar.
Nas casas, cabiam o lar, onde durante os meses frios era acesa a lareira, e à sua volta via-se normalmente, um escano, uma masseira, as camas, uma pequena mesa, uma toucinheira pendurada da trave, uma caixa de madeira de carvalho e vários molhos de lenha ao lado, que uma dúzia de galinhas usava como capoeira.
A cobertura de colmo ajudava a conservar o calor noite dentro, o que era fundamental particularmente em noites de frio e neve.
(Extracto do livro "Gralhas-Minha Terra Minha Gente)

- A FAUNA

Quando se fala em fauna, tem obrigatoriamente de se falar da Serra do Larouco, dos montes e vales que a circundam e da própria Serra da Lagoa, situada na vertente sul da aldeia.
Na realidade, devido ao relativo isolamento de parte importante da sua superfície, sabe-se hoje, que por aí se mantiveram até muito mais tarde ou ainda persistem, algumas das espécies que mais nos atraem, como é o caso da águia-real, do lobo e até de alguns corços. Sabe-se também, que a cabra-brava, passou por aqui. A última referência referente à mesma, data de 1892, época em que frequentava, a vasta zona para além do Picoto (Marco Geodésico) ao longo da raia com a Galiza.
Porém, o já referido isolamento, que caracteriza toda a zona serrana e a protecção acrescida que deriva da própria natureza do terreno, permitiu a permanência de toda uma variedade de animais, com especial referência para as aves, destacando-se por estas paragens, para além da águia-real, os milhafres, a águia-de-asa-redonda, as corujas-do-mato, os mochos, os gaios, os melros, as pegas, as perdizes e tantas outras.
Quanto a répteis, é comum ver-se por aqui a víbora-negra, a cobra-d'água, o liscranço e o lagarto. Na parte que diz respeito aos mamíferos, predominam ainda no Larouco, alguns lobos e corços, lontras, fuinhas, coelhos-bravos, texugos, lebres, e javalis com fartura.

De entre as espécies referidas, existem algumas, que pela sua importância em termos estritamente conservacionistas - trata-se de espécies em perigo de extinção ou muito ameaçados -, pelas profundas relações que desde há muito mantêm com o quotidiano local e pelo modo como nós próprios as encaramos, merecem ser realçadas. Quantas histórias e quantas lendas se poderão contar, acerca do lobo, animal que desde logo se associa ao agreste da paisagem?...
Perseguido por todo lado e dado como extinto em grande parte do continente europeu, esta espécie, ainda vinga por estas paragens. Abatido como predador de gado, sobretudo ovino e caprino, sobrevivendo com dificuldade devido ao desaparecimento da caça maior, outra fonte importante da sua alimentação, e profundamente afectado pelas alterações ocorridas no seu habitat natural, o lobo é de facto uma espécie ameaçada. À fauna selvagem, há hoje também, que acrescentar uma espécie doméstica de elevado valor e que já faz parte da paisagem do Larouco: trata-se do gado barrosão, galego, penato, mirandês e ultimamente alentejano, que ali se encontra, designadamente durante os meses de verão, em regime livre
.

- FLORA

De natureza granítica e beneficiando de um clima agreste e húmido, as serras plenas de água, desde logo surpreendem pelo vigor e carácter da vegetação que as cobre. A Serra do Larouco, situada a norte da aldeia, forma gigantescos anfiteatros, destacando-se de entre os demais, o Caldeirão, o Castelo do Romão, o Corisco e as Barreiras Brancas.
Estes cumes encontram-se muito escalvados, de tal forma, que acima dos 1400 m de altitude, subsistem apenas diversificados arbustos rasteiros, tais como, carquejas, sargaços, tojos, pequenas urzes e fetos.
Entre os 1400 e os 1200 m verifica-se já a existência de alguns carvalhos de pequeno porte, alguns vidoeiros, giestas, urzes e mato das mais diversas origens.
Até aos 1200 m a arborização é já mais densa, apresentando exemplares de grande porte, espécies arbóreas como o carvalho, o castanheiro, o vidoeiro e o salgueiro, entre muitas outras. Muito mais diverso e menos arborizado, é o revestimento vegetal da Serra da Lagoa, a qual junto ao Rio de Meixedo, nos apresenta uma extensa área de matagal - urze, tojos, giestas, sargaços, carquejas, muitos jungos e um carácter árido, que demonstra a ausência de povoamento humano.

Finalmente, não se pode esquecer que a flora do Larouco, alberga espécies botânicas do maior interesse e que são objecto de acesa discussão, nos vários congressos de medicina popular, organizados na região, com particular realce, para o realizado anualmente no mês de Setembro, em Vilar de Perdizes. Aí se recomendam para o «tratamento» de diversas doenças, os chás de Alecrim, para o combate à asma, falta de apetite, gota, amigdalites e obstrução nasal, de Barba de Milho, para as inflamações e infecções da bexiga, da Flôr de Carqueja, para a tensão arterial alta, pedra nos rins, tosse, diabetes, rouquidão e bronquite, da Erva Cidreira, para os nervos, dores de cabeça e cólicas, do Fel da Terra, para os diabetes, das Folhas de Freixo, para o àcido úrico, colesterol, má circulação e reumatismo, da Flôr da Giesta-Branca, para os diabetes altos, ureia e Infecções da bexiga, das Malvas, para as inflamações da pele e mucosas, infecções e irritações de todo o tipo, da Tília, para o coração, sistema nervoso e insónias, da Flôr da Urze, para a próstata, bexiga e rins e da Uva-do-Monte, para o colesterol «sangue gordo», trigliceridos, diabetes e inflamação da bexiga, entre tantos outras.

(Extracto do Livro "Gralhas-Minha Terra Minha Gente)

- ORGANIZAÇÃO SOCIAL E COMUNITARISMO

A organização social, o clima e a morfologia do solo, condicionaram claramente e desde sempre, as actividades rurais da população de Gralhas, que viveu durante anos, entregue às suas tradições mais antigas, algumas das quais perduraram até hoje.
A base dessa organização, até meados do século XIX, assentou na «assembleia» dos representantes das várias famílias da povoação, que reúnia com uma certa periodicidade, junto à Capela de Santa Rufina, quando tal era necessário.
Essa assembleia, chamava-se Junta, Acordo, ou Conselho e foi herdeira do antigo conventus publicus vicinorum (assembleia pública dos vizinhos) do reino visigótico. Era nessa «assembleia» que se analisavam até à exaustão, os problemas que a todos diziam respeito, e se decidia, por vontade expressa da maioria, as soluções a adoptar.
A Junta era a mais perfeita expressão da Democracia Popular. Essa assembleia, foi dirigida até aos primeiros anos do século XX, por um «Juiz», «Zelador», «Juiz de Vintena», «Procurador», «Mardomo» ou «Chamador», e a partir daí, até meados dos anos setenta da mesma era, pelo Regedor ou Presidente, o primeiro escolhido pelo povo da aldeia e o segundo pelas corporações concelhias, afectas ao regimo tatalitário da II República.

Os Regedores nomeados, eram pessoas respeitadas da aldeia e totalmente independentes das autoridades administrativas oficiais e quando da escolha, tinham a obrigatoriedade de permanecer no cargo, por um periodo minimo de 6 meses. Não eram remunerados, nem tinham qualquer tipo de previlégios pelo seu desempenho. O último Regedor da freguesia, foi António Fernandes Chaves, mais conhecido pelo «Pistão».
A estes homens, competia convocar a «assembleia», o que era feito normalmente, através do toque do sino da Capela (Santa Rufina), e verificar as presenças e as ausências, dos cabeças-de-casal. Aquele que sem justificação, não estivesse presente, era como que «excomungado» pela população, já que a todos era exigida a presença, fosse para o bom ou o mau.
Após a verificação das presenças, apresentavam-se então os assuntos a tratar. Todos em conjunto, ou individualmente. Eram calorosamente discutidos, chegando-se sempre a uma solução prática, de acordo com a vontade expressa da maioria. Em caso de empate, cabia ao «Juiz» tomar a decisão.
Eram muitos e variados os assuntos que se apresentavam à «assembleia» e esta tinha obrigatoriamente de encontrar soluções, para cada caso concreto, designadamente, no que dizia respeito à reparação e abertura de caminhos, organização da vida pastoril, distribuição das águas de rega, locais de roça, limpeza das igrejas e das poças, carretos para o povo e tantos outros trabalhos necessários à comunidade.
Esta tipo de organização durou séculos e passou de geração em geração através dos usos e costumes da terra.
A partir dos finais da década de setenta, do século passado, este tipo de organização social, foi substituída por uma espécie de «Conselho Dominical», cujos moldes de funcionamento eram muito semelhantes, senão vejamos: No final das missas de domingo, era recomendado a todos os aldeões presentes nas mesmas, de que deverim «esperar» (aguardar), normalmente no largo fronteiriço à igreja e às cortes do boi, onde teria lugar uma «reunião», para decidir sobre determinado assunto.
Estas reuniões, eram «presididas» pelo Presidente ou Secretário da Junta, a quem competia colocar as questões em discussão e avaliar as respectivas votações. À semelhança do que acontecia no passado, nada ficava escrito e o registo das decisões tomadas, ficava no subconsciente de cada um, que as acatava.Actualmente, este método caíu quase em desuso. O Conselho Dominical, poucas vezes vai a votos e foi substituído pela moderna Assembleia de Freguesia. A coberto de tal modernidade e amiudadas vezes, os senhores Presidentes cedem à tentação fácil de decidir, sem ouvir o povo e de o informar, preferindo afixar papéis em determinados locais, que poucos se dão ao trabalho de ler.
(Extracto do livro "Gralhas-Minha Terra, Minha Gente")

- PATRIMÓNIO CULTURAL

As «segadas», as «malhadas», os «carretos», as «vezeiras», os «motes», o cantar dos «reis», as «chegas de bois», entre outros, são exemplos de misturas exóticas entre o religioso e o pagão, que evocaram no passado os deuses, em favor de colheitas fartas e que é preciso não deixar esquecer. O comunitarismo tradicional , resultou assim, da necessidade de conjugar esforços, para mais facilmente se atingirem os fins desejados. E não apenas em termos laborais, ou de preparação de festas.
O povo de Gralhas, impunha igualmente as suas regras, através do seu «Conselho Dominical», reunido aos domingos após a respectiva Eucaristia. Aí, onde eram transmitidas as «ordes» (ordens), aprovavam-se posturas, para garantir o respeito pelos bens e direitos comuns e pela propriedade privada, para permitir ou não, a seiva dos gados nos terrenos abertos que estavam de restolho, para arrendar os baldios, as côrtes e os palheiros, para impôr a realização de determinados trabalhos, para restaurar, limpar e pôr em funcionamento as infra-estruturas para uso da comunidade, designadamente, caminhos, represas, forno do povo, moinhos, lama-do-boi, igreja, cemitério, poças e regos-da-água entre outras.Toda a gente era solidária. Com a mesma facilidade, com que cumpriam as regras, pediam e emprestavam o fermento, o pão, a ferramenta, o burro ou a junta de vacas. 
Pediam e davam apoio na «segada», na «carrada», no «meter do feno», na «arranca da batata», na «matança do porco» ou na feitura do fumeiro; socorriam os vizinhos na hora da «desgraça», do incêncio, da inundação, das geadas que tudo queimavam e da doença de pessoas e animais, ao mesmo tempo, que com eles choravam, nos momentos de luto e de desastre. Hoje, as novas técnicas simplificaram a satisfação das necessidades de cada agregado familiar e por isso, a necessidade de entreajuda e de partilha de recursos, foi-se diluindo progressivamente. Praticamente, tudo é feito de forma mecanizada e comercializada, e o comunitarismo, apenas resiste em pequenas franjas da população da aldeia, muito embora muitos dos «rituais», se mantenham vivos.

- OS MOTES

Como já foi referido, em finais do mês de Dezembro ou princípios de Janeiro, já em pleno e rigoroso Inverno, que por estas paragens, é ainda hoje conhecido e de que maneira pela sua longa «duração», tinha lugar a primeira sementeira da época agrícola que se avizinhava: a sementeira do centeio. Era um corropio de carros atrelados às juntas de vacas, chiando rua abaixo, rua acima, num corropio, cujo lema final era o transporte do esterco (estrume dos currais do gado), para as leiras (terrenos), que depois de podre e bem curtido, servia para adubar as respectivas terras. Daí até à proxima etapa – a segada -, era tudo uma questão de paciência e fé em Deus. Por um lado, porque desde que as sementes eram lançadas a terra, até ao momento de colher os frutos, «nada mais» era necessário fazer, pelo outro, porque se rezava aos Santos, para que o as neves ou as geadas, muito comuns por estas bandas, não fossem tão abundantes, que viessem pôr em causa o sustento de muitas familias.
OS MOTES Neste periodo de maior lazer, em parte provocado pelo frio, pelas chuvas e pelas neves, era então chegado o Entrudo, época de Caretos e de Motes, que a juventude muito apreciava.Mas se os primeiros não constituem qualquer novidade, o que eram efectivamente os Motes?... De que tratavam?... Os Motes, eram quadras de louvor, escárnio ou maldizer, de origem pagã, nascidas nos alvores da nacionalidade, e um tipo de poesia, galaico-portuguesa, que constituíu sem qualquer dúvida, um dos fenómenos culturais mais ricos da Idade Média e se prolongou na aldeia de Gralhas, até aos finais dos anos sessenta do passado século. Eram enfim, um momento único de louvor ou de critica aos aldeões, tendo sempre como pano de fundo, a satirização da sua conduta, das boas ou das más acções praticadas, durante o ano que os antecediam.
Os textos das quadras, que poderão eventualmente ser chamados de intervenção, eram lidos por dois «trovadores» previamente escolhidos, pela juventude da aldeia, que em conjunto com os anotadores (autores), as escreviam antecipadamente e em total segredo, durante os serões das longas noites do inverno, de modo a que no momento certo, constituíssem autêntica novidade. O texto no seu todo, contemplava, uma a uma, todas as familias da aldeia, e em geral, cada duas ou três quadras, eram dirigidas em exclusivo e em forma de louvor ou critica, a determinada familia ou membro da mesma. O amor, a vaidade, a ganância, a inveja, a falta de solidariedade, a critica pessoal, as «casamenteiras» e os «compadres», aliados à veia cómica, lirica ou satírica estavam sempre presentes.
Por vezes, determinadas criticas, não eram muito do agrado de quem as ouvia, designadamente, quando as mesmas lhe «batiam à porta», ou mesmo, quando através da sua leitura, se punham a descoberto, «amores proibidos», «negócios fraudulentos», «comportamentos hereges», «falta de dignidade e honradez» ou se ridicularizavam os comportamentos menos abonatórios das pessoas visadas.
Mas como é que tudo isto funcionava: No dia aprazado para a leitura dos ditos Motes e ao toque do sino da Capela (de Santa Rufina), o povo juntava-se no largo hoje apelidado de Cruzeiro. Um dos trovadores, subia para a varanda do Zé Rato, segurando o seu caderno de leitura e o melhor galo da freguesia, devidamente decorado com todo o tipo de adornos, e que para o efeito, era oferecido ou comprado. Para a varanda fronteiriça, subia o segundo trovador, munido tal como o primeiro, do seu caderno, onde previamente haviam sido escritas as quadras, que iriam fazer as delicias dos presentes, tanto mais que cada lavrador, suas mulheres, filhos, filhas, namorados, namoradas, velhos, velhas e até os solteirões e solteironas da terra, não escapavam à ridicularização.
Uma vez instalados e em jeito de leitura feita ao desafio, os trovadores, só interrompidos pelas palmas dos presentes, faziam a apologia do galo. Realçavam as sua cores, o seu tamanho, o tamanho da sua crista e dos seus «tomates», a sua elegância e altivez, o modo como cantava, tudo isto intercalado com comparações satiricas, a determinadas pessoas presentes na concentração. Aqueles que não resistiam, abandonavam o local a resmungar, em sinal de protesto, mas tudo isto fazia parte da «festa»... Após atingidos os primeiros objectivos, o galo era então simbolicamente morto e esquartejado. Logo após, procedia-se à distribuição de todas as componentes do seu corpo!... Sempre de forma simbólica, aos aldeões alvos de maiores criticas, eram atribuídas as penas. A outros, cuja conduta não era tão censurável, saíam-lhe em sorte as patas ou a cabeça. Para outros, dado o seu melhor relacionamento e disponibilidade, ficavam reservadas, as asas ou o pescoço e para os aldeões exemplares, para aqueles que mais contribuíam para a boa harmonia e para o progresso da terra e respectiva população, ficavam as cochas e o peito, que eram as partes mais apreciadas.
No final da sessão, surgiam os comentários de concordância ou discordância, com o desfolhar das criticas. Discutia-se, a «qualidade» dos Motes, se tinham sido bons ou maus, se tinham sido melhores ou piores que os do ano anterior!... Discutia-se o «ataque» que fora feito ao fulano A, quando quem tinha a ver com o assunto, era o B. Discutia-se a inoportunidade de desvendar determinado segredo, quando outros, deviam vir para a praça pública, enfim... todo um rol de questões, que eram tema de conversa, nos três ou quatro dias que se seguiam.
Quanto ao galo, agora sim... via chegada a sua hora, de fazer as delicias de quantos tinham contribuído para a festa. Anotadores e trovadores, reúniam-se em casa de um deles e após a respectiva «janta», comemoravam pela noite dentro...

(Extracto do livro "Gralhas-Minha Terra, Minha Gente")

- TRÊS MESES DE INFERNO

Após as matanças dos porcos, as comemorações natalícias, por estas bandas carregadas de significado, a passagem do Carnaval, a época da Quaresma e da Páscoa, cuja efeméride e tudo quanta a envolvia era igualmente muito respeitada, aproximava-se a grande labuta, que envolvia toda a comunidade da aldeia e até em muitos casos de familiares de outras freguesias próximas, que não se escusavam de dar o seu contributo. se que muitas vezes constituía verdadeira festa.
A dita labuta, que em muitos casos constituía uma verdadeira festa, tinha inicio em meados do mês mês de Junho e prolongava-se  até aos últimos dias de Setembro, principios de Outubro, motivo pelo qual, muitos apelidavam este periodo, de «três meses de inferno», assim conhecido, pela abundância de trabalho, que havia nesse espaço de tempo.
Era o corte do feno nos lameiros, o seu tratamento e respectivo transporte para os palheiros, a segada, a carrada, o preparar das eiras para malhada, que até há quatro/cinco décadas, era feita com os malhos e posteriormente a arranca da batata, entre outros que amiudades vezes íam surgindo e que era necessário ultrapassar.
Extracto do livro Gralhas-Minha Terra Minha Gente

- AS SEGADAS

A «segada», era um dos ditos trabalhos, que marcava particular relevo na mente dos meus conterrâneos. Como todos os outros, era tudo feito manualmente, o que obrigava, a que fosse preparada e anunciada quase ao milimetro e com a devida antecedência.
Os convidados, constituídos normalmente por familiares e amigos próximos, precaviam-se com gadanhos (foices) novos, que adquiriam normalmente em Espanha e apresentavam como autênticos troféus. Face ao previsível número de «pousadas (número de molhos) a colher», era necessário calcular o número de pessoas necessárias, de entre seitoiras (segadores) e atadores, para que tudo decorresse, entre um, dois ou o máximo, três dias, tanto mais que havia outros vizinhos em «fila» de espera.

Chegado o dia, era um «ver se te avias»!... Desde o nascer ao pôr do sol, apenas com interrupções para o mata-bicho (pequeno-almoço) e jantar (almoço), os quais tinham lugar em determinada leira (terreno) previamente definida, os segadores, percorrendo fazenda a fazenda, erradiavam uma alegria constante!... Faziam-se «apostas», discutia-se o número de regos (sulcos) que cada um segava, quem era o melhor segador, quem atava melhor, «arranjavam-se» namoricos e no final, o momento esperado: o recolher dos molhos para a roda (circulo) - feita normalmente no meio da fazenda -, onde ficavam sobrepostos uns sobre
os outros, com as espigas de fora e ao sol, para uma melhor maturação e a feitura do ramo (arranjo feito em cruz) da segada, que depois era transportado por um dos segadores, que em conjunto com todos os demais, entoavam cânticos, até à porta do «patrão», a quem o entregavam para exposição pública (normalmente feita nas varandas das habitações) e protecção divina. Como agradecimento pelos cânticos e pelo terminar do trabalho, era então dado de beber (vinho) aos segadores, através de um pipo (barril em miniatura), que circulava de boca em boca.
Seguia-se a ceia (jantar), que normalmente se prolongava até altas horas!... Aí esgrima-se de tudo um pouco... Se a leira «A», dera muito pão (centeio) ou pouco; se a leira «B», tinha dado mais pousadas ou menos, que o ano passado; se determinada leira do fulano «A», é melhor que a do fulano «B», enfim... todo um corropio de assuntos, cujo pano de fundo, era sempre o mesmo... a competição entre lavradores.
Finalmente e após mais alguns «copos» para retemperar as energias, era chegada a hora da deita...É que no dia seguinte, repetindo-se o figurino, o «patrão» dava em «empregado»... e havia que levantar cedo.


Extracto do livro "Gralhas-Minha Terra Minha Gente"

- A CARRADA

O passo seguinte nesta desenfreada labuta, dava pelo nome de «Carrada» e consistia no transporte do centeio, segado nos diversos terrenos, para as eiras, que eram propriedade de determinado grupo de pessoas, sendo aí depositado em enormes medas, que chegavam em muitos casos a atingir, os quinze metros de altura, por outros tantos de diâmetro.
Todo esse transporte, era efectuado em carros puxados por vacas ou bois e tal como na «segada», também a «carrada», obedecia a certos rituais. Os cornos do gado, eram lavados a preceito, o seu pêlo tratado como nunca, as campaínhas para o enfeitar, tinham que ser sempre as melhores da casa, isto para já não falar, dos melhores jugos, das melhores molhelhas (cangas) e dos melhores estadulhos, que nesta altura, saíam das «loijas» (adegas) e substituíam os de uso corrente. Durante a carrada, a jugada (junta de vacas ou bois) de cada lavrador, era sempre apresentada, numa atmosfera de competição. Era preciso dar o «risco» (ser o melhor).
Extracto do livro "Gralhas-Minha Terra Minha Gente"

- AS MALHADAS

Até meados do século XX e tal como na sega do feno, do centeio, nas carradas ou nas malhadas, tudo era feito manualmente. Neste caso concreto, eram necessários para malhar, pelo menos oito homens, quatro de cada lado e cada qual utilizando o seu malho (mangualde). Depois do centeio malhado, era levantada a palha com uma forquilha e atada em molhos, que posteriormente eram guardados nos palheiros. O centeio que ficava no chão, era tirado pelas mulheres, com uma vassoura, normalmente feita com ramos de giesta, até ficar limpo. Além disso, era ainda ajoeirado ao vento e só depois transportado em sacos, para as caixas (arcas). Não se pense contudo, que este era um trabalho fácil!... Apesar de não parecer, era tão árduo como a própria sega do feno, ou a segada do centeio.

É que antes da malhada propriamente dita, havia todo um conjunto de afazeres, que não sendo fáceis eram de todo em todo bastante desagradáveis, senão vejamos: A eira, era devidamente varrida, e mais que uma vez. Posteriormente, era recolhida na aldeia e zonas limitrofes, bosta (fezes) do gado, com a qual era barrado o recinto, até agarrar bem. Esperava-se que a dita bosta secasse, e só então, estavam reunidos os requisitos necessários, para dar inicio à malhada propriamente dita. A partir dos anos 60, do mesmo século XX, este método foi-se alterando progressivamente e as malhadas, apesar de continuarem a fazer-se nas eiras, tal como no passado, eram já feitas, com o auxilio de «malhadeiras» (máquinas), que com o decorrer do tempo, se foram tornando mais sofisticadas.